Ernesto chegou cedo no local marcado. O velho dava aula de yoga numa sala. Assim que o viu, acenou e fez sinal que esperasse.

Logo a aula tinha terminado e Ernesto pôde se dedicar ao que veio fazer: perguntas. Ernesto abriu o bloquinho de notas.

— O que significava essa história de incômodo e necessidades? Qual a relação entre elas? Porque quando expliquei o que me incomodava você continuou repetindo a pergunta, como se não estivesse satisfeito? Será que existe uma alternativa para as constantes brigas, discussões e agressões que travamos diariamente? O que é o dia do silêncio? Porque sonhei com você?
Porque acho que o que você tem a falar é importante? A propósito, qual o seu nome?

— Uau, quantas perguntas! — disse o senhor.

— Desculpe, não tenho tempo a perder. — Ernesto disparou a metralhadora porque gostava de ser direto. Melhor assim. Ainda mais com aquele senhor que parecia mais ensaboado que seu filho mais novo cheio de espuma quando brincavam ao tomar banho.

— Ué, não sabia que o tempo pudesse ser perdido. E me diga, você alguma vez já o achou de volta?

— Olha, senhor…

— Rosa, meu nome é Rosa.

— Escuta, sr. Rosa, o que quis dizer é que preciso voltar pra casa na hora do almoço, minha esposa e filhos estão esperando. Desculpe se pareci grosso. Esse é o meu jeito. Sou assim mesmo. — Ernesto falou.

— Entendi. “Pau que nasce torto morre torto, né?”

— Isso mesmo.

— Então porque me fez aquelas perguntas?

Ernesto fez cara de quem não entendeu.

— Você veio em busca de respostas, não é isso?

— Sim.

— E acha que essas respostas podem fazê-lo aprender algo, é isso?

— É. — Ernesto não entendia onde ele queria chegar.

— Então Ernesto, presta atenção. Porque se a gente vai estabelecer algum tipo de relação mestre aprendiz, professor aluno etc., essa coisa de pau que nasce torto morre torto é a primeira coisa que você precisa esquecer. Pau que nasce torto nasce também com o potencial de ser o que quiser. Porta, mesa, balanço, lenha, viga, janela, etc. Se você não acreditar nisso não há sentido em responder suas perguntas.

— Entendi.

— Mesmo? E como isso se aplica ao seu caso?

Ernesto não sabia responder.

— Pense nisso. Medite aqui nesta sala. Enquanto isso vou resolver um problema no encanamento. — disse sr. Rosa.

Ernesto viu o velho se dirigir ao banheiro.

Entrou numa sala ampla, aconchegante, de piso frio. Uma música suave tocava em algum lugar. A sala tinha cheiro de incenso. Algumas almofadas estavam dispostas nos cantos. Pegou uma delas e sentou. O clima daquele lugar transmitia paz e acolhimento. Três pessoas estavam sentadas em posição de Buda, impassíveis, olhos fechados. Surgiu uma vontade louca de dar um grito. Abafou a risada e o grito. Se concentrou em sua tarefa.

O que Rosa quis dizer com potencial de ser o que quiser? Antes Ernesto tinha dito que era grosso e não tinha jeito. Será que poderia deixar de ser grosso e agressivo?

Desde que se entendia por adulto tinha lembrança de seus impropérios, sua fama de responder no mesmo tom, não levar desaforo pra casa. Ele era assim. Uma de suas características mais marcantes.

Logo em seguida imaginou como seria se fosse diferente. Se relacionando com seus filhos, Nice e amigos de um jeito mais leve, cheio de ternura e compaixão. As imagens, os abraços e risadas que viu foram tão reais que uma energia percorreu seu corpo. Seria possível realizar essa mudança nessa vida?

Abriu os olhos e viu Rosa olhando da porta. Levantou-se e foi até ele.

Andaram até uma área aberta, cheia de plantas.

— E então? Que conclusões chegou? — perguntou o velho.

— Posso deixar de ser grosso e agressivo? Assim como um pedaço de pau pode ser flexível o bastante para servir pra várias coisas?

— Não encare a si mesmo como uma escultura, que precisou de esforço e tempo para ser lapidada e depois que foi finalizada fica exposta em um pedestal num museu. O mais importante, Ernesto, nessa história de “ser o que quiser”, é o potencial. Estamos mergulhados em um universo de possibilidades. Imagine um rio e seu constante fluxo de água. Dizem que você não pode entrar duas vezes no mesmo rio, porque na segunda vez ele já está diferente. Um rio é cheio de possibilidades. E quando tomamos consciência de que somos mais como um rio do que uma escultura, colocamos nossa atenção em um instrumento fundamental.

A cabeça de Ernesto fervilhava. Descartou as ferramentas usadas para esculpir coisas e focou nos barcos. Pensou em remos, bóias, velas, leme e…

— Bússola! É a bússola, não é?

Sr. Rosa deu uma risada.

— Isso, Ernesto, gostei do raciocínio. Vamos explorar essa idéia mais tarde. Por enquanto tinha pensado em algo mais sutil.

— No quê? — Ernesto achava que a bússola tinha tudo a ver.

— Quando percebemos que temos várias possibilidades, precisamos dar atenção a nossas escolhas.

— E pra escolher precisamos de uma bússola, não é?

— Sim, sim. E consultar a bússola faz parte do ato de escolher.

— Verdade.

Ernesto olhou para o relógio.

— Agora você já tem material para o dever de casa. Todo ato de comunicação possui embutido nele uma série de escolhas. A cada diálogo você pode escolher o que vai falar, que direção quer dar à conversa, que tom de voz irá usar. Quero que você pratique isso nessa semana: a cada conversa e a cada diálogo quero que você tome consciência de que escolhas está fazendo.

— Mas peraí, nem sempre tenho opção! — Ernesto protestou.

— Não mesmo? Semana que vem neste mesmo horário você me conta sua experiência.

O sr. Rosa entrou numa sala para dar mais uma aula e Ernesto ficou sozinho com seu dever de casa.