Estava sentado no segundo ônibus voltando pra casa, igual as outras vezes. Olhou pra trás e o viu.
Desta vez você não me escapa! Pensou entre os dentes.
Levantou-se de um salto, passou por cima do cara que estava dormindo ao lado.
“Ei!”, chamou o velho, que já havia dado sinal para descer.
“Ernesto! Tudo bem?” Hoje ele estava falante. Peraí, como sabia o seu nome?
O ônibus parou. O velho já descia as escadas.
“Vem, caminhe comigo.”, fazendo um gesto para que o acompanhasse.
Ernesto se desvencilhou das pessoas para alcançar a porta aberta.
“Vai descer!”, gritou pro motô.
O veículo começou a andar, a porta de trás fazendo aquele chiado enquanto fechava.
“VAI DESCER, PORRA!”
Freada de ônibus. Aquelas que uma pessoa vomita toda a comida que digeriu nas últimas horas.
Ernesto se reequilibrou segurando nas hastes, deu trancos em dois desavisados que provavelmente estavam querendo impedí-lo de ver o senhor e saiu do ônibus.
“Filho da puta!” Gritou pro motorista, que provavelmente também fazia parte de uma seita cujo objetivo era proteger o velho senil.
Ele o estava esperando na calçada. Se vestia com uma calça social e camisa pólo. Usava sandálias e tinha uma pasta nas mãos.
“Oi, Ernesto.”
“Como sabe meu nome? Porque não falou comigo ontem?”
“Calma, caminhe comigo. Você está ofegante, precisa respirar.” E começou a andar.
Surpreso com sua firmeza nas palavras, Ernesto titubeou e ficou pra trás. Apressou o passo e logo o alcançou.
Entraram numa praça. Árvores e canteiros gramados os circundavam. O sol se punha atrás de uma frondosa amendoeira. Sentiu-se estranhamente em paz.
“O que te incomoda, filho?”
Lá vinha o velho com aquela história de novo. Desta vez não sairia sem explicações plausíveis. Era muito fácil pra ele ficar fazendo perguntas sem nexo. Não era ele que tinha que pagar as contas e cuidar de duas crianças. Muito menos chegar em casa tarde da noite e tentar ser gentil e amoroso com sua família. Aquela paz deu lugar a uma erupção de raiva. Sentiu seu corpo enrijecer. A pulsação acelerou.
“Quer saber o que me incomoda? Pessoas como você! E meu chefe! E minha esposa! Sempre achando que estão com razão em tudo.”
O senhor colocou a mão no seu ombro e o olhou nos olhos. Seria aquilo compaixão?
“Você gostaria de ser reconhecido por essas pessoas, eu incluído, pelo seu esforço e dedicação?”
O clima da praça, que mais parecia um bosque interminável, o acalmava. Ou talvez fosse aquela pessoa ao lado dele.
“Não sei. Sim. Acho que é isso.”
“Você deseja que seu chefe acolha seu trabalho…”
“Sim…”
“…e deseja que Nice reconheça que está fazendo o melhor possível para sustentar a ela e seus filhos.”
“Sim…”
O senhor bateu em seu ombro sorrindo.
“Isso, meu filho, é o que te incomoda.”
“Como assim? Não é a mesma coisa?”
Antes que pudesse responder, um apito de trem soou forte perto dali. Ernesto não lembrava que havia uma estação de trem perto da praça. Engraçado pensar isso porque também não lembrava daquela praça…
O apito aumentou de intensidade.
“Ernesto! O alarme…”
Nice o acordou com um afago no ombro e voltou a dormir.