No caminho de ida pro trabalho, Ernesto navegava pelas redes sociais. Um texto de um amigo chamou sua atenção pela quantidade de comentários contidos nele. Ele contava uma história que havia acontecido com um dos familiares do amigo.

O texto contava que a pessoa tinha se envolvido numa discussão no trânsito. O problema é que a confusão ficou tão séria que o outro envolvido acabou fechando o carro do familiar. Não resultou em algo pior porque os transeuntes os apartaram.

Seu amigo se mostrava indignado com a truculência do agressor e observava que não havia policial ou autoridade alguma pra protegê-los. Os comentários dos amigos variavam do apoio ao amigo e família à crítica aos poderes públicos, em especial a polícia. Outros exigiam a prisão do agressor. Teve até quem chamasse o familiar de ingênuo porque hoje em dia não se devia entrar em discussão no trânsito. Esse aí deu merda. Porque o amigo levou a mal e então iniciaram réplicas e tréplicas sem fim.

Uma coisa estranha que Ernesto reparou foi que o texto não tinha uma descrição clara sobre o que havia causado a discussão. Mesmo assim resolveu solidarizar-se. Digitou o seguinte comentário “esse energúmeno devia ser preso!”, e marcou um símbolo que indicava um sentimento de indignação.

Ficou se perguntando onde tudo isso parar. Será que não haveria outro meio de resolver essas discussões sem agressões ou violência?

Ficou tão incomodado que acabou comentando o episódio no almoço. Mas o debate ficou acalorado mesmo quando começaram a falar da responsabilidade do poder público naquela confusão. Até que um comentário de um colega o surpreendeu:

“Cara, eu não entendo porra nenhuma de política pública. Mas uma coisa que aprendi na minha época de pastoral da juventude é que política se faz no dia a dia, no cuidado com as relações, no exercício de estar na pele do outro, de entender suas dores e necessidades. Hoje tem uma porrada de nego que sabe tudo de política, tem solução pra educação, saúde, segurança e o escambau. Fico impressionado com tantos letrados!! Têm opinião até pra política externa da Mauritânia, mas é um intragável e arrogante. Fazer política é se relacionar de igual pra igual com seu semelhante. Se os dois caras que discutiram no trânsito tivessem praticado essa política que tô falando estaríamos falando de futebol, trabalho ou mulher! Me dá mais um chopp aí, Cabeça!!”

Aquele desabafo do colega no almoço não saia de sua cabeça. Ficou remoendo aquilo até a volta pra casa. Ernesto olhava pela janela do ônibus quando alguém o cutucou no ombro.

“Oi, filho.”

Era o velho do ônibus.

“Você?!”

Estava tão distraído que não percebeu que havia sentado do lado do senhor.

“Você está tão longe…” disse ele com uma risada.

“Tenho tanta coisa pra perguntar pro senhor!”

“Imagino. Ontem você parecia bem frustrado por não ter conseguido falar comigo. Eu lhe devo um pedido de desculpas. Era o meu dia de silêncio.”

“Dia de quê?”

“Olha, tenho que descer. Porque não vai amanhã ao centro onde participo?”

Ernesto pegou o endereço e combinou de chegar lá pela manhã. Deu uma risada abafada. Que velho maluco, dia do silêncio!