Voltava pra casa de carro. Trânsito de sábado infernal. Na terceira fechada já tinha mandado geral para aquele lugar.

Ia dirigindo e pensando em como a ideia do velho era descabida. A cada diálogo escolher as palavras. Tudo bem, algumas vezes, talvez em sua maioria, isso fosse possível. Mas tinha alguns momentos que não dava para tirar o pé do acelerador. Tem nego que fala o que quer, tem que ouvir o que não quer. Além do mais, um diálogo como esses seria chato pra caramba.

— Um momento, Fulano, estou pensando se devo questionar seu argumento usando a ideia A ou simplesmente enfiar um murro na sua fuça.

— Oh, é claro, Beltrano, leve o tempo que quiser. Mas saiba que você vai apanhar tanto que vai chorar igual um neném.

— Obrigado, Beltrano. O que decido: continuo esse magnífico papo entre cavalheiros ou deixo você sentado depois de uma banda? Então pego essa cadeira e sento ela na sua cara? Talvez discutir o sexo dos anjos! Não consigo decidir!! Não consigo decidir!!! Vou ter um aneurisma!! – lembrou da música do Tenacious D (*) e sorriu.

— Velho maluco! — gritou Ernesto pensando no disparate do sr. Rosa.

O motorista do carro ao lado concordou:

— Ele me fechou do nada, você viu?

Ernesto gargalhou.

Depois de meia hora de engarrafamento, embicou na garagem do prédio. Chegou no apartamento com o almoço já servido. Um prato era sua única recepção de boas vindas. Comeu a comida morna. Logo sentiu a mão de Nice em seu ombro.

— Desculpe, amor, não devia ter ido lá. Foi uma total perda de tempo.

— Porquê? Ele não respondeu suas dúvidas?

Ernesto contou a conversa com o senhor Rosa e a ideia de que podemos escolher como conduzir nossos diálogos.

— Talvez ele tenha razão…

— Ah, Nice, você também com essas maluquices?

— Tá vendo? Agora mesmo você podia ter escolhido dizer outra coisa.

— O que, por exemplo?

Nice pensou um pouco.

— Sei lá, você podia ter ficado curioso e dizer: porque você acha que ele pode ter razão?

— Mas não é tão fácil assim!

— Ele falou que seria fácil?

Ernesto abaixou a cabeça.

— Não…

Nice se aproximou.

— Acho que vai ser perda de tempo… — falou, já cedendo ao olhar da esposa.

— Faz um esforço, amor…

Se beijaram. E depois outra vez.

— As crianças estão vendo desenho? — Ernesto esticou o olho para o corredor.

Nice o puxou pro quarto deles.

Agora não tinha jeito. Ernesto sempre cumpria as promessas que eram seladas assim…

 


 

A música a que Ernesto se refere é a música Rock Your Socks do Tenacious D, que argumenta que se tornar um astro de rock requer muito esforço e dedicação. Uma das atividades ditas difíceis é escolher que camisa usar no ensaio da banda: “What t-shirt am I going to wear? Cant decide! Cant decide! Brain aneurism!”