Logo Ernesto teria oportunidade de praticar o que aprendeu.

Estavam se arrumando para a festinha de aniversário de um colega de Guilherme. Nice estava impaciente porque Bruno teimava em ficar jogando game em vez de tomar banho. Nada o fazia mover um centímetro. Foi quando Nice desistiu e pediu apoio ao grupo de operações especias. Isto é, Ernesto.

Ele bateu contingência e foi cumprir sua missão. Faria uma intervenção cirúrgica no centro do combate. Era entrar e sair. Sem baixas. Planejava usar sua estratégia vencedora: barulho e medo. Sentiu uma ponta de vergonha em planejar aquilo tudo mas diluiu o sentimento se convencendo de que em situações extremas precisava aplicar medidas extremas.

Já estava no meio do corredor pisando duro quando lembrou-se do velho e de sua lenga-lenga sobre optar pelo que falar e das várias possibilidades que podemos usar (e escolher) para conduzir um diálogo. Mas isso era aplicável nessa situação? Este caso não era bem um diálogo. Certo?

Parou um pouco.Os soldados atenderam o sinal de “parar” do comandante com a mão espalmada e o braço levantado. O esquadrão de elite aguardava em profundo silêncio e atenção às novas ordens do capitão. Por sua vez este pensava.

Na verdade, não seria um diálogo se ele entrasse gritando feito um maluco na sala. Desta maneira seria um monólogo. Ou um diálogo em que o outro lado não tinha nem chance de responder e o lado gritante muito menos queria ouvir. Sentiu o suor pingando do rosto. Era o manto da culpa que estava vestindo.

Respirou fundo. Resolveu praticar e escolher outra estratégia, alguma coisa mais parecida com um negociador do que um soldado do Bope. Um, mississipi, dois, mississipi. Vamos lá!

Chegou na porta da sala. Viu que Bruno estava jogando um game conhecido. Ele e o pai já tinham jogado algumas fases juntos antes.

— Buck já conseguiu recuperar o cálice? — ainda bem que se lembrava do nome do herói.

— Não é Buck, pai, é Bud.

Bruno nem olhou pra ele. Manipulava aquele controle com se fosse uma extensão do próprio corpo.

—Já, agora está tentando sair das ruínas. — o filho resolveu responder a pergunta do pai.

— E qual a dificuldade? Porque está demorando tanto?

— Está tudo caindo aos pedaços e nessa parte preciso sincronizar os passos com os tiros e pulos. Tá vendo? — mostrou ao pai uma cena cheia de explosões.

— Meu filho, dá uma pausa e vai tomar banho. Temos o aniversário do Beto, seus amigos também vão estar…

— Peraí, pai, deixa só terminar essa sequência.

— Dá uma pausa, Brunô…

— Não tem botão pra pausar, paiê…

Sentiu Nice cutucá-lo impaciente atrás de si. Seu tempo estava acabando. A negociação estava sendo um fracasso. A tropa de elite já estava a postos para invadir o local. Talvez alguns reféns tivessem que ser sacrificados. O negociador tentou mais uma vez:

— Depois você joga de novo…

— PERAÍ!

Ernesto entendeu o recado: as negociações tinham sido encerradas. Um refém jazia no chão. O negociador deu sinal para a tropa de elite entrar. A versão equivalente a quebrar as janelas e jogar gás lacrimogêneo de Ernesto foi puxar o controle das mãos do filho e desligar a TV.

— Pai! Eu estava quase conseguindo!

— Vai tomar seu banho, Bruno. AGORA!!!

Bruno saiu correndo e chorando.

Nice o encarava da soleira da porta.

— Tá vendo, Nice, nem sempre dá pra escolher!