Ernesto saiu às pressas da sala resmungando baixinho um “que reunião merda!”, e depois pensou (porque não teve coragem de falar) “pra variar”. Sua pressa tinha motivo: precisava buscar os filhos na escola. Ainda teria que enfrentar aquele trânsito irritante e possivelmente o mala do Juarez falando durante o trajeto. Eles voltavam do trabalho no mesmo horário e, infelizmente, moravam na mesma região da cidade.

Já na segunda condução, quando finalmente se viu livre de seu colega de trabalho, sentou-se ao lado de um velho senhor. Curiosamente o ancião estava com um sorriso no rosto. Achou estranho quando percebeu que o olhava fixamente.

Quando já passava da estranheza para a irritação, o senhor lhe fez uma pergunta:

— O que te incomoda, meu filho?

Ernesto resolveu responder.

— Não é nada, não. Foi um dia bem estressante, cheio de reuniões chatas. Só isso.

O senhor pareceu interessado porque logo em seguida acrescentou:

— É mesmo? E o que te incomoda, meu filho?

Coitado. O velho, além de estranho, estava surdo, Ernesto pensou desanimado. Mas ainda assim resolveu responder à pergunta repetida.

— Além disso o trânsito hoje está bem complicado.

O velho ficou animado:

— Verdade. E o que te incomoda, filho?

Ernesto sentiu pena do velho.

— Por isso tive que ficar ouvindo as abobrinhas do Juarez por mais tempo! Juarez é um amigo mala que volta todo dia comigo. O senhor entendeu?

Já estava ficando irritado com aquele papo que não ia a lugar algum.

Desta vez o senhor mudou a expressão.

— Meu filho, perguntei o que TE incomoda.

— Acho que não estou entendendo…

Ernesto ficou confuso. O senhor se levantou. Puxou a cordinha para descer na próxima parada. Antes de se encaminhar para a porta abaixou e sussurrou-lhe:

— Não perguntei as coisas que estimulam sua irritação. A reunião. O trânsito. O seu colega de trabalho. Perguntei que necessidades não estão sendo atendidas em você para causar essa irritação.

— Hã? Eu. Não. Sei…,

Ernesto estava perplexo.

— Pense nisso, meu filho.

Deu um tapinha no ombro dele, se dirigiu pra porta de saída do ônibus e desceu.

— Espere!

Ernesto não sabia, mas aquele encontro iria transformar sua vida…