Chegou em casa irritado. Sua esposa o recebeu com um boa noite que ele preferiu não responder. Não queria piorar o resto do dia iniciando uma discussão com Nice.
“Que foi? Tá Chateado com o quê?”
“Nada, Nice!”
Queria sumir dali. Tomar um banho. Ver um filme. Correr dez quilômetros. Assistir um jogo de futebol. Qualquer coisa menos começar a falar do dia e lembrar dos fracassos que aconteceram. Do chefe filho da puta. Do velho ignorando ele. Dos olhares assustados dos colegas na reunião. Todos uns escrotos que queriam fuder com sua vida. E agora tinha que dar explicação pra Nice sobre a merda do dia!
Ela ainda estava falando. Ernesto não ouvira nada do que tinha dito. Relatava o dia das crianças na escola. Aconteceu algo com o Bruno.
“Ernesto!”
“Que foi, Eunice, porra!”
“Você tá me ouvindo?”
Deu um suspiro longo.
“Não, desculpa, amor…”
Ela o olhou com ternura. Veio em sua direção e o abraçou.
Ernesto sentiu seu corpo relaxar. Podia começar a chorar ali agora. Sentia que era o melhor a fazer. Sim, chorar e deixar as lágrimas lavarem sua alma, seu dia, suas frustrações. Foi quando Nice falou.
“Você tem que ser mais atento, Ernesto.”
Percebeu uma cobrança na sua voz.
“Não começa, Eunice!”
Se desvencilhou do abraço e saiu da cozinha. Viu a luz acesa do quarto dos meninos e disparou pra lá. Os meninos estavam acordados.
Desligou o interruptor com um tapa.
“Já falei que dez horas é hora de dormir!”
Entrou no banheiro, ouvindo o choro das crianças. Abriu o chuveiro e deixou a água quente cair.
Já não dava pra saber se a água que caía vinha do chuveiro ou de seus olhos…