Acordou determinado a encontrar o senhor. Engoliu o café da manhã e partiu pro trabalho. Não tinha nenhuma referência dele, nem nome nem nada. Sabia onde tinha descido pois gravou o ponto de ônibus no qual saltou. A melhor chance seria pegar o ônibus na mesma hora de ontem.
O dia passou como sempre, demorado e irritante. Na saída correu pra pegar o primeiro ônibus. Seu colega não entendeu sua pressa, afinal não era seu dia de pegar as crianças. Inventou uma desculpa qualquer e partiu.
Durante o trajeto lembrou de mais uma situação que lhe saiu do controle durante o dia.

Seu chefe havia pedido um relatório com alguns números de um projeto crítico na gerência. Ernesto trabalhou nele durante toda a semana. Conversou com várias pessoas envolvidas, desde o setor operacional até a gestão. Obteve informações e dados, criou planilhas, extraiu gráficos, montou uma apresentação resumindo tudo da forma mais apresentável possível. Estava bastante orgulhoso de seu trabalho. Achava que seu chefe iria elogiá-lo. Ele merecia o elogio. Os colegas que viram seu trabalho ficaram impressionados. A reunião de tarde tinha como objetivo apresentar ao seu chefe seu trabalho.
A reunião foi uma tragédia. Seu chefe não estava nem um pouco preocupado em ver a apresentação. No segundo slide, no meio da pizza que surgiu na tela ele interrompeu Ernesto:
– Tenho cinco minutos, Ernesto, qual é a conclusão do seu estudo?
Ernesto ficou vermelho, não tinha nem mostrado a tabela com os filtros que mudavam à medida que fossem clicados.
– Mas tinha agendado a reunião para durar uma hora, chefe!
– Desculpa, Ernesto, mas esqueci que tinha outro compromisso daqui a pouco (olhando para o relógio).
– É por isso que o projeto está na situação que está!
– Não entendi.
– Você não dá a mínima atenção para ele!
– Como?
– Deste jeito quem está trabalhando nele reproduz essa mesma atitude: não faz porra nenhuma! Todo mundo brincando de seguir o mestre.
Junta suas coisas e sai da sala. Todos o olham assustados. Aquela promoção ficou ainda mais distante… Ainda ouve seu chefe dizer:
– Depois conversamos sobre essa questão.

Agora seu pensamento estava de volta ao segundo ônibus, onde havia encontrado aquele senhor. Sentou-se na mesma posição do dia anterior, tentando repetir os mesmos passos, como se fazendo isso conseguisse trazê-lo de volta.
Mas nada do velho.
Observava atentamente cada movimento no ônibus.
Uma criança sentada no colo da mãe olhava distraída pela janela. Seu cabelo lembrava o de Bruno.
Um jovem balançava freneticamente pros lados com um fone de ouvido tão grande que mais pareciam tijelas de sopa. Imaginou o peso daquele equipamento.
A senhora sentada ao lado do jovem tentava ler seu livro mas não passava da mesma página. De vez em quando virava pro jovem irritada. Se ele visse o olhar que ela lhe dirigia já tinha desligado aquela música e descido do ônibus. Talvez até saído da cidade.
Se permitiu rir por dentro. E lembrou que há algum tempo não ria assim, sem qualquer razão aparente.
Estava chegando o ponto do velho. Olhou pra trás e o viu. Estava em pé, esperando pra descer. O sinal já tinha sido dado. Faltavam poucos quarteirões pro motorista parar o coletivo.
Ernesto se levantou esbaforido. Gritou:
– Oi! Lembra-se de mim?
O senhor não pareceu escutar. Será que era surdo? Quantos anos teria ele? Setenta? Oitenta?
Se aproximou e tocou seu ombro. O velho olhou pra ele e sorriu. Ernesto não perdeu tempo. Ele nunca perdia tempo.
– Preciso entender melhor aquelas coisas de que me falou ontem. Qual o seu nome? Onde posso encontrá-lo? Tem um número de celular ou um cartão?
O senhor continuava sorrindo. O ônibus parou. Não!
– Espere! O senhor tem que ajudar! Me diga o seu nome!
Ele passou por Ernesto, deu um tapinha em seu ombro e desceu no ponto.
Ficou tão sem ação que viu o ônibus fechar as portas e continuar seu trajeto. O velho estava parado na calçada sorrindo pra ele.